quarta-feira, 5 de outubro de 2011

REFLEXÕES SOBRE O CAPITALISMO PUTREFATO

Admira-se um ser pensante como o Celso, que de alguma forma mostra a degeração da humanidade, em vista disso, as citações são perfeitas e os comentários dispensa cometários.


REFLEXÕES SOBRE O CAPITALISMO PUTREFATO
Por Celso Lungaretti

No artigo 'Temos que abandonar o mito do crescimento econômico infinito', escrito para a BBC, o professor Tim Jackson, da Universidade de Surrey, resume as teses que vem defendendo desde 2006 e sistematizou em sua conhecida obra Prosperity without Growth - Economics for a Finite Planet (Prosperidade sem Crescimento: Economia para um Planeta Finito), lançada no final de 2009.

O diagnóstico é correto, mas, como bom schoolar do sistema, ele não o leva até as últimas consequências. Vamos ao que interessa (trechos):

"Nas últimas cinco décadas, a busca pelo crescimento tem sido o mais importante dos objetivos políticos no mundo.

A economia global tem hoje cinco vezes o tamanho de meio século atrás. Se continuar crescendo ao mesmo ritmo, terá 80 vezes esse tamanho no ano 2100.

Esse extraordinário salto da atividade econômica global não tem precedentes na história. E é algo que não pode mais estar em desacordo com a base de recursos finitos e o frágil equilíbrio ecológico do qual dependemos para nossa sobrevivência.

Na maior parte do tempo, evitamos a realidade absoluta desses números. O crescimento deve continuar, insistimos.

As razões para essa cegueira coletiva são fáceis de encontrar.

O capitalismo ocidental se baseia de forma estrutural no crescimento para sua estabilidade. Quando a expansão falha, como ocorreu recentemente, os políticos entram em pânico.

...Questionar o crescimento é visto como um ato de lunáticos, idealistas e revolucionários.

Ainda assim, precisamos questioná-lo. O mito do crescimento fracassou. Fracassou para as 2 bilhões de pessoas que vivem com menos de US$ 2 por dia.

Fracassou para os frágeis sistemas ecológicos dos quais dependemos para nossa sobrevivência.

...Os dias de gastar dinheiro que não temos em coisas das quais não precisamos para impressionar as pessoas com as quais não nos importamos chegaram ao fim.

Viver bem está ligado à nutrição, a moradias decentes, ao acesso a serviços de boa qualidade, a comunidades estáveis, a empregos satisfatórios.

A prosperidade, em qualquer sentido da palavra, transcende as preocupações materiais.

Ela reside em nosso amor por nossas famílias, ao apoio de nossos amigos e à força de nossas comunidades, à nossa capacidade de participar totalmente na vida da sociedade, em uma sensação de sentido e razão para nossas vidas".

TRABALHO HUMANO JOGADO NO RALO

Faltou Jackson explicar melhor por que "o capitalismo ocidental se baseia de forma estrutural no crescimento para sua estabilidade".

Em meados do século retrasado Marx já esgotava esta questão.

A contradição entre a produção coletiva e a apropriação individual gera um permanente desequilíbrio entre a oferta e a procura, já que os produtores não temos capacidade aquisitiva para adquirir tudo que produzimos. Fica faltando aquela parte dos frutos do nosso trabalho que é usurpada pelo capital, a mais-valia.

Para evitarem-se aquelas crises terríveis de excesso de produção (escassez de consumidores, na verdade), a economia capitalista se voltou cada vez mais para o parasitário, instituições financeiras à frente; o suntuário e a indústria bélica. São formas de se jogar no ralo o trabalho humano sem proveito para a humanidade, muito pelo contrário.

Afora os mecanismos de crédito que vão empurrando o acerto das contas cada vez mais para a frente, permitindo aos consumidores adquirirem o que não podem bancar, até que o elástico arrebenta e vêm as recessões.

Não há como sanar-se a irracionalidade econômica do capitalismo -- é ela que o condena à extinção. Ou nos condena, se não conseguirmos escapar de suas garras em tempo.

A expansão econômica apenas adia o desfecho para o qual suas contradições apontam, ao custo de comprometer cada vez mais "os frágeis sistemas ecológicos dos quais dependemos para nossa sobrevivência".

Então, mudar este foco não é uma questão de convencer as pessoas a abdicarem do consumismo em prol do amor familiar. A lógica perversa do sistema, martelada dia e noite por sua nefanda indústria cultural, vai exatamente na direção oposta.

Sob o capitalismo, nem mesmo a substituição do transporte individual pelo coletivo está sendo implementada como deveria, embora cada automóvel novo que sai da fábrica seja mais um prego em nosso caixão.

Então, uma "prosperidade" que "transcede as preocupações materiais" só será possível quando as motivações maiores dos seres humanos deixarem de ser a ganância e a busca da diferenciação, trocadas pela cooperação solidária e pela priorização do bem comum.

Em outras palavras, quando o homem despertar do pesadelo capitalista.

Texto retirado do Blog de Celso Lungaretti - http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/2011/10/reflexoes-sobre-o-capitalismo-putrefato.html

Blitz - Você Não Soube Me Amar

Você Não Soube Me Amar



Sabe essas noites que você sai caminhando sozinho
De madrugada com a mão no bolso
Na rua

E você fica pensando naquela menina
Você fica torcendo e querendo que ela tivesse
Na sua

Aí finalmente você encontra o broto
Que felicidade (que felicidade)
Que felicidade (que felicidade)
Você convida ela pra sentar (muito obrigada)
Garçom uma cerveja (Só tem chope)

Desce dois desce mais
Amor pede uma porção de batata frita
OK você venceu batata frita

Ai blá blá blá blá blá blá blá blá blá
Ti ti ti ti ti ti ti ti ti

Você diz pra ela
Tá tudo muito bom (bom)
Tá tudo muito bem (bem)

Mas realmente
Mas realmente
Eu preferia que você estivesse
Nuuuuu...a

Você não soube me amar
Você não soube me amar
Você não soube me amar
Você não soube me amar

Todo mundo dizia
Que a gente se parecia
Cheio de tal coisa e coisa e tal

E realmente a gente era
A gente era um casal
Um casal sensacional

Você não soube me amar
Você não soube me amar
Você não soube me amar
Você não soube me amar

No começo tudo era lindo
Era tudo divino era maravilhoso
Até debaixo d'água nosso amor era mais gostoso

Mas de repente a gente enlouqueceu
Ai eu dizia que era ela
Ela dizia que era eu

Você não soube me amar
Você não soube me amar
Você não soube me amar
Você não soube me amar

Amor que que'cê tem

Cê ta tão nervoso
Nada nada nada nada nada nada

Foi besteira usar essa tática
Dessa maneira assim dramática (eu tava nervoso)
O nosso amor era uma orquestra sinfônica (eu sei)
E o nosso beijo uma bomba atômica

Você não soube me amar
Você não soube me amar
Você não soube me amar
É foi isso que ela me disse

Oh! baby não!

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Absurdo - Concurso Público para Jornalista Exige apenas o Ensino Médio

Comunique-se

Por Izabela Vasconcelos

Apesar de a maioria dos concursos públicos ainda exigir diploma de graduação em jornalismo para o exercício da profissão, algumas seleções já são abertas a candidatos que possuem apenas o Ensino Fundamental ou Médio, como é o caso do concurso público da Câmara de Rio Claro, no interior de São Paulo, que requer apenas o Ensino Médio e registro no órgão competente.

Mesmo sem a exigência de diploma, o salário obedece ao piso da categoria, é de R$ 2.196.59. O profissional selecionado deverá cuidar da assessoria de imprensa e da comunicação do órgão.

A Câmara informou que o edital é baseado na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que em 2009 derrubou a exigência de graduação em jornalismo para o exercício da profissão.

Leia mais: Diploma: 40% dos registros são concedidos a jornalistas sem formação
Casos similares

Em março do ano passado, a Prefeitura de Cabedelo, município da região Metropolitana de João Pessoa (PB), abriu concurso para jornalista com ou sem graduação na área, com salário de R$ 510,00.

Este ano, a Prefeitura de Guaratinguetá (SP), selecionou jornalistas graduados, no entanto, oferecia salário mínimo (R$ 545,00). Em julho, a Justiça do Trabalho determinou que a prefeitura mude o edital do concurso e ofereça os vencimentos de acordo com o piso para os jornalistas e fotógrafos. Caso descumpra a ordem judicial, a prefeitura sofrerá pena de multa diária de R$ 500, limitado ao valor de R$ 100 mil.

Contra a maré

Mesmo com a decisão do ministro Gilmar Mendes, relator do caso no STF, órgãos públicos nas cidades de Belo Horizonte, Campina Grande-PB, Natal e Maceió e os estaduais de Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul rejeitam candidatos para vagas de jornalismo que não tenham graduação específica em comunicação social.





quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Pearl Jam - Black

Agir como tiete - Eu amo essa banda, eu amo Eddie Vedder (ah, o Eddie Vedder, lindo!) e eu AMO essa música.
"Hey...oooh...
Folhas de pintura vazias
Peças intocadas de argila
Foram dispostas diante de mim
Como o corpo dele um dia esteve"


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Incrível Wim Mertens

É uma vergonha, mas devo confessar, num faz muito tempo que comecei a gostar de Wim Mertens... [Como todo mortal, conhecia apenas "Struggle for Pleasure", uma das mais conhecidas e uma das trilhas do documentário "Nós que aqui estamos por vós esperamos"]. Mas acho isso o menos importante, portanto, divulgo-o no meu humilde Blog.
Wim Mertens nasceu na Bélgica, em 14 de maio de 1953, é compositor, contratenor, vocalista, pianista, guitarrista e musicólogo e sua discografia é vasta (precisa de muito tempo para comnhecer melhor as suas composições que somam mais de 50 discos).

                                                                           


   
                    

Músicas de Wim Mertens que fizeram parte da trilha sonora do documentário descrito acima.

Theis Duet / His own thing / watch over me
Silver lining / Shot one / We'll find out
Wandering eyes / The fosse / Lir
Maximizing the audience / Darpa / Houfnice
Iris / Struggle for pleasure / 4 mains
To Keep them from falling / Often a bird
Out of the dust / Hedgehog's skin / Not me

Dicografia Wim Mertens

1980 - For Amusement Only - The Sound of Pinball Machines

1982 - At Home - Not At Home
1982 - Vergessen
1983 - Close Cover
1983 - Struggle for Pleasure
1984 - The Power of Theatrical Madness (Limited Edition Single)
1984 - A Visiting Card
1985 - Usura (under the band name Soft Verdict)
1985 - Maximizing the Audience
1986 - Close Cover (2)
1986 - A Man of No Fortune, And with a Name to Come
1986 - Hirose
1986 - Instrumental Songs
1987 - Educes Me
1987 - The Belly of an Architect
1988 - Whisper Me
1988 - After Virtue
1989 - Motives for Writing
1990 - No Testament
1990 - Play for Me
1991 - Alle Dinghe Part III: Alle Dinghe
1991 - Alle Dinghe Part II: Vita Brevis
1991 - Alle Dinghe Part I: Sources of Sleeplessness
1991 - Stratégie De La Rupture
1991 - Hufhuf (Single taken from Stratégie De La Rupture, including previously unreleased material)
1992 - Houfnice
1992 - Retrospectives Volume 1
1992 - Shot and Echo
1993 - A Sense of Place
1994 - Epic That Never Was
1994 - Gave Van Niets [Promo] [1994-11]
1994 - Gave Van Niets Part IV: Reculer Pour Mieux Sauter [1994-11]
1994 - Gave Van Niets Part III: Gave Van Niets [1994-11]
1994 - Gave Van Niets Part II: Divided Loyalties [1994-11]
1994 - Gave Van Niets Part I: You'll Never Be Me [1994-11]
1995 - Jeremiades [1995-04]
1996 - Entre Dos Mares [1996]
1996 - Lisa [1996-04]
1996 - Jardin Clos [1996-10]
1996 - As Hay in the Sun [1996-10]
1996 - Piano & Voice [1996-12]
1997 - Sin Embargo [1997-10]
1997 - Best Of [1997-11]
1998 - In 3 or 4 Days (Single taken from Integer Valor, including previously unreleased material)
1998 - Integer Valor
1998 - And Bring You Back
1999 - Father Damien
1999 - Integer Valor - Intégrale
1999 - Kere Weerom Part III: Decorum
1999 - Kere Weerom Part II: Kere Weerom
1999 - Kere Weerom Part I: Poema
2000 - If I Can
2000 - Rest Meines Ichs (Single accompanying Der Heisse Brei, not sold separately)
2000 - Der Heisse Brei
2001 - At Home - Not At Home
2001 - Aren Lezen [Promo]
2001 - Aren Lezen Part I: If Five Is Part Of Ten
2001 - Aren Lezen Part II: Aren Lezen
2001 - Aren Lezen Part III: Kaosmos
2001 - Aren Lezen Part IV: aRe
2002 - Years Without History Volume 1 - Moins De Mètre, Assez De Rythme
2002 - Years Without History Volume 2 - In The Absence Of Hindrance
2002 - Years Without History Volume 3 - Cave Musicam
2002 - Wim Mertens Moment Box set featuring Vergessen, Ver-Veranderingen (Previously recorded 1981 but unreleased), The Belly of an Architect, Struggle for Pleasure, Motives for Writing, Maximizing the Audience, Instrumental Songs, If I Can, For Amusement Only, Educes Me, At Home - Not At Home, After Virtue, A Man of No Fortune, And with a Name to Come
2003 - Years Without History Volume 4 - No Yet, No Longer
2003 - Skopos
2004 - Years Without History Volume 5 - With No Need For Seeds
2004 - Shot and Echo/A Sense of Place (including previously unreleased material)
2005 - Un respiro
2006 - Partes Extra Partes
2007 - Receptacle
2008 - Platinum Collection
2008 - L'heure du loup
2008 - Years Without History vol. 1-6 boxset (vol. 6 available only in this boxset)
2008 - Years Without History Volume 7: Nosotros
2009 - Music and Film (3-CD boxset with over 20 unreleased tracks)
2009 - The World Tout Court
2009 - QUA (Um box com 37 cd's já lançados, incluindo:Alle Dinghe)
2010 - Zee Versus Zed

Site de Wim Mertens: http://www.wimmertens.be/

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

24 anos sem o 'Nosso" Drummond

Há 24 anos ficaríamos órfãos de um, dos grandes gênios da literatura brasileira.
 Nascimento
31 de outubro de 1902 - Itabira, Minas Gerais 
Morte
17 de agosto de 1987 - Rio de Janeiro, RJ

O Site "Literatura Brasileira.Net" resume um pouco do Drummond: "Muitos poemas de Drummond funcionam como denúncia da opressão que marcou o período da Segunda Grande Guerra. A temática social, resultante de uma visão dolorosa e penetrante da realidade, predomina em Sentimento do mundo (1940) e A rosa do povo (1945), obras que não fogem a uma tendência observável em todo o mundo, na época: a literatura comprometida com a denúncia da ascensão do nazi-fascismo. 
A consciência do tenso momento histórico produz a indagação filosófica sobre o sentido da vida, pergunta para a qual o poeta só encontra uma resposta pessimista.
O passado ressurge muitas vezes na poesia de Drummond e sempre como antítese para uma realidade presente. A terra natal - ltabira - transforma-se então no símbolo da atmosfera cultural e afetiva vivida pelo poeta. Nos primeiros livros, a ironia predominava na observação desse passado; mais tarde, o que vale são as impressões gravadas na memória. Transformar essas impressões em poemas significa reinterpretar o passado com novos olhos. O tom agora é afetuoso, não mais irônico".

Esse vídeo foi produzido pela montagem de outros filmes antigos de autores surrealistas como Bunel e Léger e arquivos históricos...

Voz de Paulo Autran e fundo musical Struggle for Pleasure- Wim Mertens.



Poema de Sete faces


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?


A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Dueto - A Bela Zizi Possi e o Gênio Chico Buarque

A autora do livro, "Chico Buarque e os meus botões", Maria Stela Faciola Pessoa Guimarães, diz que, "Pedaço de mim é um diálogo entre mulher e homem no momento de separação, de perda, de despedida".

Interessante que não faz muito tempo ter ouvido de uma amiga da faculdade que essa música faz referência a história da Zuzu Angel, mas não sabendo ao certo da história me mantive de bico fechado... Bom, já tinha lido esse livro, mas não lembrava de nada, então, não quis duvidar...

Portanto, a única alternativa foi fazer uma segunda leitura do mesmo, narrando o descrito miudamente, sem deixar passar os mínimos detalhes.

Para tanto, Maria Stela, apresenta uma síntese histórica da música , "Os versos “Oh, pedaço de mim”, especialmente, bem como os demais, em certa medida, podem ser lidos com base na Bíblia Sagrada / O Velho Testamento / Livro do Gênesis. Depois de tratar da criação do céu e da terra e tudo o que neles se contém, da criação dos seres viventes e da formação do jardim do Éden, o livro de Moisés aborda como Deus criou a mulher":

“21. O Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu: e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar.

22. E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher: e trouxe-a a Adão.

23. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne: esta será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada".

"Vale a pena observar a dramática riqueza das comparações escolhidas por Chico para conceituar saudade. Quando o verbo é exilar, a saudade é comparada com um barco (para lembrar viagem). Se o verbo é arrancar, o paralelo chocante é a morte de um filho. Se o verbo é amputar, a saudade é igualada à fisgada do membro perdido, explica Maria Stela".


“Oh, pedaço de mim
       Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus”.